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Sagarana: Resumo Por Capítulo

Paráfrase da obra de Guimarães Rosa, por Bruno Alves

ATENÇÃO: A experiência artística da leitura literária é única e pessoal: sempre que puder, entre em contato com os textos originais para compreender os livros em sua essência.

O burrinho pedrês

Na fazenda do Major Saulo vivia um burrinho pedrês, já muito velho e bem vivido. Chamava-se Sete-de-Ouros. Sua história de vida poderia ser resumida nos fatos de um só dia, que será contado adiante.

Era uma manhã chuvosa de um dia de janeiro na fazenda do Major Saulo, no vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais. O burrinho, sereno e sábio, observava o movimento dos bois nos currais, que iam para lá e para cá disputando espaço. Ele se cansa de assistir a bagunça e fecha os olhos, mas logo é incomodado por um cavalo que vem tomar seu lugar, além de outros que começam a brigar. Sete-de-Ouros encontra um canto, perto da varanda, onde pode ficar sossegado, mas logo é avistado pelo Major, que ordena Francolim, seu assistente, que o arreie. Francolim debocha da situação do velho burrinho, mas seu patrão o defende.

Major Saulo preocupa-se com a chuva, que poderia atrapalhar o transporte da boiada, mas confia em seus homens. Há, entretanto, o comentário que dois dos vaqueiros, Silvino e Badú, estejam brigados por conta de o segundo ter ficado com a moça que era namorada do primeiro. Enquanto falam sobre isso, Badú tenta montar em seu cavalo, mas o animal se comporta agressivamente. Francolim conta a seu patrão que vira Silvino assoviando no ouvido do cavalo, o que o teria irritado, e sugere uma punição imediata. Porém o Major prefere acompanhar o caso a uma certa distância, sem tomar atitudes precipitadas.

Sete-de-Ouros é montado por João Manico, que era o mais leve entre os cavaleiros. Juca Bananeira, conversando com Badú, sugere que ele carregue uma arma para defender-se de Silvino, mas Badú duvida da coragem de seu inimigo para atentar contra sua vida. Os bois se agitam, sentindo que chega a hora da partida. Alguns animais, de acordo com o estado físico, são trocados de última hora. Mas a maioria deles são bem gordos e preguiçosos, e não devem dar trabalho aos boiadeiros. Ao todo, são quatrocentos e sessenta bois levados por onze homens e seus cavalos, e o burro.

A boiada ia se organizando conforme marchava. Os boiadeiros seguiam trocando histórias, enquanto cuidavam para que os animais continuassem tranquilos. Raymundão conta a Badú sobre o Calundú, um boi zebu que conhecera, enorme e valente. Quando jovem ele era manso, até que se estranhou com outro zebu, numa luta que durou duas horas e da qual saiu vitorioso. Certa noite Raymundão ouviu sua cachorra estranhando algo no mato e foi ver o que era. As vacas começaram a se ajuntar em círculo, com as crias ao meio, e o Calundú rodando em volta: uma onça estava à espreita. O boi zebu postou-se em defesa dos seus semelhantes, com muita coragem e braveza, tanta que a onça deu para trás.

A chuva apertava e o córrego, que costumava ser de fácil travessia, estava cheio. Bois e cavalos passaram com a água no pescoço. O burrinho, que era desacreditado por muitos, seguiu firme, devagar e sempre.

Major Saulo e João Manico iam lado-a-lado, proseando, quando veem à frente um cavaleiro enfrentando um touro e se salvando por pouco: era Badú. Francolim correu ao seu patrão para contar que tudo fora armado por Silvino, que agitou os bois com um pano vermelho. O Major pede que seu assistente troque de montaria com Manico, subindo no burrico. Francolim pede somente que a troca seja desfeita ao chegarem no arraial, pois não queria parecer desmoralizado pelo povo do local e Saulo concorda.

Desacreditando que Silvino pudesse assassinar seu companheiro de trabalho, o Major pediu que Francolim, montado no burro, seguisse mais atrás enquanto ele conversava com Raymundão. O boiadeiro compartilhou com seu chefe sobre a primeira vez em que topou com um boi bravo e como o amansou. Em seguida, sobre a briga dos seus companheiros, revelou que Silvino estava se preparando para deixar aquelas bandas: tinha vendido suas vacas e voltaria para suas antigas terras. Raymundão ainda contou a conversa que travou com Badú, sobre o boi Calundú.

Aquele boi, noutra ocasião, matou um garoto que gostava muito dele, Vadico, filho do Borges. O menino nem queria ir para a escola, de tanto que gostava dos animais. Porém um dia, quando os bichos eram alimentados, o Calundú, que geralmente aceitava o carinho do Vadico, acertou-lhe um golpe mortal. Seu Borges preparou a arma para revidar o ataque, mas o último pedido da criança foi que não maltratassem o bicho. Naquela noite o boi ficou mugindo alto, como de tristeza pelo seu ato.

Ainda sobre Silvino, Raymundão contou que ele se estranhara com seu irmão, Tote, que estava lhe devendo um dinheiro. Sabendo disso, o Major dispensou seu funcionário e chamou de volta Francolim, desfazendo troca de montaria do burro com Manico. O Major incumbiu seu companheiro de cuidar do resto da viagem, pois ele permaneceria no arraial com sua família, e alertou que Silvino realmente estava prestes a matar Badú, portanto era preciso ter cuidado.

A boiada passando pelo arraial em direção ao embarque nos trens era um evento que chamava a atenção de todos os moradores. Realizado o trabalho, todos cavaleiros saíram para comer e beber, deixando os cavalos e o burro descansando.

Quando voltaram, os homens foram tomando seus animais, um a um, deixando o Sete-de-Ouros sozinho. Surgiu Badú, totalmente bêbado, maldizendo seu destino de montar um burrico velho. O burro, por sua vez, só queria saber de voltar logo à sua casa, à sua tranquilidade de sempre.

À frente, Tote tentava convencer Silvino de não colocar em prática seu plano assassino, mas ele tinha tudo em mente: mataria Badú e sumiria na vida. Francolim se aproximou, argumentando que estava incumbido pelo Major de cuidar do grupo, mas foi desprezado.

Manico ainda contou uma outra história, de quando Major Saulo ainda era Saulinho, e todos os gados da região estavam fracos ou doentes. Seu chefe comprou um rebanho por um preço justo e fez um favor para a dono da fazenda de levar um negrinho, de uns sete anos, para seu irmão. O menino chorava por se distanciar de sua mãe e, durante a noite, cantava tristemente. Ao amanhecer sumiram todos os animais, que pisotearam dois dos boiadeiros, e não havia nenhum sinal do pretinho. Levaram uma semana para rejuntar os animais que haviam se embrenhado em matos e brejos.

Chegou a hora de atravessar novamente o córrego. Os cavalos demonstravam medo e deixaram o burro decidir se era possível ou não a passagem. Sete-de-Ouros seguiu o caminho, carregando o Badú embriagado em seu lombo. Confiando no instinto do burrico, os demais cavaleiros entraram na água, porém a correnteza era demais. Diversos animais eram levados por redemoinhos e os corpos foram encontrados inchados por afogamento. Francolim conseguiu se salvar agarrando-se à única coisa que se movia contra a corrente: o rabo do burrinho pedrês, que trazia Badú ainda vivo até a outra margem.

Sete-de-Ouros ainda caminhou até a fazenda onde encontrou seu canto, sua comida e seu descanso tão esperados.

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