Laços de Família: Resumo Por Capítulo

Paráfrase da obra de Clarice Lispector, por Beatriz Visconti

ATENÇÃO: A experiência artística da leitura literária é única e pessoal: sempre que puder, entre em contato com os textos originais para compreender os livros em sua essência.

Amor

Assim como a maior parte das obras de Clarice Lispector, Amor trata a questão existencial do ser humano, principalmente a da mulher, por meio de uma epifania –tempestade de pensamentos e reflexões acerca da vida e da realidade.

A vida de Ana, personagem principal cuja psicologia será analisada, girava em torno do lar, marido e filhos, ou seja, uma ótima mãe de família. Todo dia realizava as tarefas domésticas como se havia sido programada inteiramente para isso, sem capacidade de formar pensamentos próprios ou desejos. Sua essência escondia-se entre os móveis limpos da casa e as refeições da família, uma vez que seu espírito não caberia no papel de mulher imposto pela sociedade – crítica generalizada às mulheres – e que ela aceitara involuntariamente.

Um dia, Ana saiu para comprar comida e voltava para casa de bonde, refletindo superficialmente sobre sua vida: era uma boa mãe e esposa, nunca deixava a casa meio arrumada ou os filhos mal cuidados, era muito útil! Porém, não era feliz. Terminadas as tarefas, o meio tempo vago até seu marido chegar era perigoso por ser a hora quando não cumpria trabalhos mecânicos, ela fugia de seus próprios pensamentos reprimidos e do vazio deixado por eles.

Em meio a essas observações, Ana avista, de dentro do bondinho, um cego parado na rua mascando chiclete. O coração da mulher acelera. Sobressalta-se. Apenas a visão de um homem cego e ela encontra-se em uma névoa de inquietações? Inicialmente, essa epifania se dá por piedade do cego, em seguida identifica-se com ele – por não ser capaz de enxergar efetivamente a vida e apenas cumprir atos automáticos, como mascar chiclete.

Esse pensamento reaviva seus mais primitivos sentidos e sua percepção do mundo alastra-se. A falta do objeto – visão – do outro ressaltou a presença do objeto nela. Nunca estivera tão instigada, mas, por um curto período, desvia-se da figura do cego pelo freio do bonde que fez a rede de compras cair, quebrando os ovos e fazendo-os escorrer pela rede. Metaforicamente, depois desse “insight” da personagem, os ovos – representantes das paixões reprimidas de Ana – quebram, ou melhor, libertam-se e escorrem pela rede de tricô que ela mesma teceu – simulando a vida construída por ela, que não mais suportava contê-los. “O mal estava feito”.

Sentia acordar, finalmente, para a realidade. Com este susto, percebe que passou de seu ponto de parada e prontamente desce no Jardim Botânico para um atalho até sua casa. Lá, “tudo era estranho, suave demais, grande demais”, ela experimentava a natureza como nunca experimentara antes. Cores, formas e cheiros! Sentia-os com tanta intensidade que até mesmo o belo confundia-lhe com asco e o nojo lhe dava alegria. Os contrários fundem-se: nojo/fascínio e jardim bonito /medo da morte.

É a partir desse momento que Ana se vê entre o cego e o jardim. Esses dois são alegorias, uma vez que o primeiro representa a condição em que a personagem se apresentava, fechada para enxergar a vida além do que criou para si; e o segundo, o jardim, como a verdade que a cercava, aquilo que mostrava a ela a expansão da vida além do que possuía. “O mundo era tão rico que apodrecia”. Esses pensamentos viviam em seu inconsciente, porém só surgiram conscientemente após um símbolo tão grande como um cego mascando chiclete os trazer à tona.

Então se lembrou de suas crianças, voltou correndo para casa e abraçou um de seus filhos tão forte a ponto de quase machucá-lo. “Não deixe a mamãe te esquecer”. Ana estava tão apaixonada pela vida fora daquilo conhecido, que teve medo de abandonar sua própria família para correr atrás dessa flama. Envergonhou-se, pois só alguém muito ingrato não seria feliz com a própria família, ela sentia que aquela vida não lhe satisfazia mais. “… Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver.” Havia tanto no mundo – o jardim – e ele precisava dela – a vulnerabilidade do cego.

Ao abraçar o filho, tenta reconectar-se com sua antiga vida, a qual não enxergava mais com tanta facilidade: consistia em cuidados irreflexos e não profundamente sentidos e, agora, reflexionava por si mesma.

Seu desejo de mudança era forte, mas não o bastante para superar o medo. A vontade de ajudar o mundo a engolia, mas por outro lado não queria perder o lar construído por si mesma.

Mais tarde naquela noite, seus irmãos jantaram em sua casa e Ana observou-os com muita atenção, como se fossem desconhecidos, ria suavemente. Depois do evento, Ana ouve um barulho muito forte na cozinha e sai correndo em sua direção, era o marido que havia derramado o bule do café. Percebendo a preocupação da mulher, consola-a e estende-lhe a mão acolhedora, como se a “afastasse do perigo de viver”.

Ela aceita. Decide esquecer tudo pelo que passou naquela tarde, a fim de voltar a ser a mesma de sempre. “Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia”. Podando suas novas raízes para caber, mais uma vez, no destino de mulher.

Anterior Índice Próximo
error: Compre nossos ebook, a partir de R$ 5,90, para ter acesso aos textos com a opção copiar/colar habilitada ;)